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Gazeta Mercantil - Segunda-feira, 6 de agosto de 2001

ADRIANO KOEHLER

Economia traduzida para provocar mudanças

Economistas do passado escreviam com mais clareza

Há cerca de 200 anos, a economia não era tratada de maneira tão árida como se apresenta hoje no economês adotado pelos profissionais da área. Isto porque os economistas daquela época eram muito mais políticos, analisando com suas obras um momento histórico que coincidia com o fim dos regimes aristocráticos e o início da revolução industrial. Para resgatar essa tradição, a SEGESTA EDITORA, de Curitiba, em parceria com a Musa Editora, de São Paulo, lançou o livro Economistas Políticos, uma coletânea de textos inéditos de dez pensadores clássicos do tema escritos entre o final do século XVII e início do XIX.

Segundo Pedro de Alcântara Figueira, coordenador e tradutor do livro, os economistas políticos se diferenciam de seus pares contemporâneos por retratar aquela época de grandes mudanças e lutar pelo fim dos privilégios que existiam. "Tocqueville, por exemplo, conta que um artesão na França do ancién régime, se pensasse em uma inovação na sua oficina, deveria escrever um verdadeiro tratado pedindo a autorização do rei para isto. Era uma maneira de impedir a evolução", diz Figueira. Os Economistas políticos são aqueles que pedem a liberdade para o indivíduo, para dar-lhes o laisser faire, o poder fazer.

Os dois textos que abrem o livro, por exemplo, são de Adam Smith, o célebre autor de A Riqueza das Nações. Nestas duas obras, que servem como um prenúncio do que o autor condensaria em seu livro mais famoso, Smith põe em evidência os personagens que fazem e encarnam as revoluções do período, em especial a francesa, a americana e a incipiente industrial. Os textos mostram que há um fio condutor para os grandes movimentos da história, diferente da "mão invisível" que alguns autores citam como a responsável pelas mudanças na humanidade.

"A economia política é definida com a união da análise econômica com a do substrato social. Os autores representam um aspecto da história da economia que não é muito explorado - o de que existia uma situação de opressão e que eles combatiam os monopólios e as corporações", comenta Figueira. Apesar de os termos serem semelhantes aos utilizados hoje em dia, o coordenador do livro frisa que os conceitos são diferentes. "São épocas diferentes, os autores do livro encarnam aquele momento de mudanças muito importante. Hoje, derrubado o Muro de Berlim, não há mudanças acontecendo, não veremos derrubada de época alguma, como aconteceu naqueles tempos", afirma.

Andre Vicentini, um dos sócios da Segesta, afirma que em uma época de campanhas mundiais em favor de privatizações, de redução do papel do Estado na economia e de um predomínio da banca financeira internacional sobre outras formas da economia, é necessário resgatar o espírito de luta dos economistas políticos. "O centro do debate da economia contemporânea é a bolsa de valores, as finanças. Os autores clássicos, no entanto, partem sempre do trabalho, que é a base de tudo. Os contemporâneos deveriam voltar ao trabalho como ponto de partida de seus estudos", defende Vicentini.

Por exemplo, Adam Smith abre o texto Sobre as Corporações dizendo "todos os monopólios são extremamente nocívos". "No entanto, temos que lembrar que as corporações que estes economistas atacam foram necessárias algum dia para organizar a economia daquela época. Os autores reconhecem isto, mas defendem novas formas de organização que a sociedade está pedindo", comenta Figueira. Ele observa que os autores escolhidos representam "um brado de alerta, um grito por mudanças."

Os textos selecionados não retratam situações idênticas as encontradas hoje em dia, apesar de existirem semelhanças entre elas. No entanto, Figueira defende a leitura dos clássicos por dois motivos principais. "Em primeiro lugar, são bons textos, de ótimos autores. Em segundo, eles usam um linguajar fácil de entender, bem diferente do hermetismo utilizado pelos economistas de hoje em dia", diz o coordenador. Para ele, os economistas políticos da época tinham a necessidade de esclarecer as mudanças que aconteciam e transmitir as idéias à população, para que ela tomasse posição. "Os autores têm consciência de que o dinheiro tem um papel fundamental na sociedade e usam uma linguagem que pode ser entendida. Diferente da maioria dos economistas de hoje, que não têm idéias", acrescenta Figueira.

Além do já clássico Smith, Economistas Políticos traz textos dos ingleses William Petty, Nicholas Barbon e David Ricardo, dos franceses Pierre de Boisguilbert, Turgot e dos enciclopedistas Diderot e D'Alembert e do americano Benjamin Franklin, todos inéditos em português até então. Segundo Vicentini, o objetivo da Segesta é publicar textos clássicos de economia que possam ajudadr no debate dos temas contemporâneos. "Quando a sociedade global entra em crise, ela é obrigada a buscar novas soluções. Por isso, é preciso ter a coragem de voltar no tempo, em outras encruzilhadas da história e ver o que os estudiosos da época disseram", diz Vicentini.

Este é o segundo título lançado pela editora e também o segundo em parceria com a Musa. A proposta é lançar 20 títulos diferentes, todos inéditos no Brasil e clássicos da economia mundial. No ano passado foi editado o primeiro livro, Da Moeda, de Ferdinando Galiani, de 1751. Há outros dois livros prontos, esperando para serem editados. O primeiro é o do italiano Antonio Serra , O Breve Tratado das Causas que Podem Fazer os Reinos Desprovidos de Minas Ter Abundância de Ouro e Prata, de 1613. O segundo é o do irlandês radicado na França Richard Cantillon, de 1755, ititulado Ensaio Sobre a Natureza do Comércio em Geral.

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