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Valor | Terça-feira, 17 de julho de 2007

ANTONIO DELFIM NETTO

Geminiano Montanari

O conhecimento da história do pensamento econômico é muito útil e instrutivo para relativizar a idéia, tão comum entre nós, que toda a teoria econômica foi feita nas duas Cambridges, a inglesa e a americana. Uma das virtudes do curso do professor Paul Hugon, na FEA/USP no final dos anos 40 (ele nos deixou um livro modesto "Elementos de História e Doutrinas Econômicas"), era o seu eurocentrísmo, com viés claramente francês. As outras grandes vertentes do pensamento econômico antigo, como o italiano e o alemão, sempre foram tratadas de forma superficial ou ignoradas.

O mesmo ocorre com os livros mais recentes. A exceção - ainda que idiossincrática - é a magistral obra de Schumpeter ("História da Análise Econômica"), desorganizada, mas riquíssima, e gozando ainda de boa saúde no seu cinqüentenário. É ele quem nos diz: "Vamos nos reservar a aspectos da literatura italiana sobre a moeda que, neste período (meados do século XVI e meados do XVII), teve um nível superior a de todas as outras". E cita alguns autores: Gasparo Scaruffi (1515-1584); Bernardo Davanzati (1529-1606); Geminiano Montanari (1633-1687); Ferdinando Galiani (1723-1787) e Gian Rinaldo Carli (1720-1795). Toda essa literatura foi conservada com extremo zelo (e pequenos pecados) na famosa Collezione Custodi dos "Scrittori Classici Italiani di Economia Politica", reunida pelo Barão Pietro Custodi e publicada em Milão em 50 volumes, entre 1803 e 1816.

Essa pedante introdução destina-se apenas a chamar a atenção dos economistas para o fato que há qualquer coisa que continua se mexendo no Brasil no que diz respeito ao conhecimento do pensamento econômico antigo. E a origem sísmica é a mesma. A Segesta Editora, de Curitiba, cometeu mais uma obra-prima. Acaba de publicar (com a colaboração do Ministério das Relações Exteriores da Itália) uma cuidadosa edição (de Marzia Terenzí Vicentini) da obra clássica de Geminiano Montanari, "Tratado Mercantil sobre a Moeda", de 1683, à qual se referia Schumpeter.

Trata-se do sétimo grande livro traduzido para o português pela Segesta por puro amor profissional ao conhecimento econômico. Todos clássicos, valiosos e bem produzidos:

  1. Galiani, F. - Da Moeda (1751);
  2. Economistas Políticos (excertos dos clássicos, ingleses e franceses);
  3. Cantillon, R. - Ensaio sobre a Natureza do Comércio em Geral (1755);
  4. Serra, A. - Breve Tratado das Causas que Podem Fazer os Reinos Desprovidos de Minas ter Abundância de Ouro e Prata (1613);
  5. Galiani, F. - Diálogos sobre o Comércio de Cereais (1770);
  6. Oresme, N. - Pequeno Tratado da Primeira Invenção das Moedas (1355).

O próximo lançamento, já anunciado, será do maior interesse para nossos economistas e historiadores, pois tratará dos economistas portugueses. É fundamental que esse enorme esforço editorial encontre ressonância entre estudantes, profissionais e, principalmente, na academia, naqueles que se interessam pela história do pensamento econômico. Montanari foi durante 14 anos professor de matemática na Universidade de Bologna e depois professor de astronomia e de metereologia na Universidade de Padua, formação que se rastreia claramente no mecanismo dos seus argumentos. A leitura é agradável e vale à pena. Talvez se possa mostrar a qualidade da contribuição de Montanari no fato de que, para ele, o valor dos bens era determinado pela sua "utilidade" e "raridade", enquanto Petty (1662) e Locke (1690) ainda acreditavam que ele era determinado pela quantidade e duração do trabalho nele incorporado.

A sua fantástica capacidade de observação e antecipação (coisa de astrônomo) pode ser apreciada na frase que Marx tornou famosa ("Grundrisse", tome II, pg. 271, na erudita tradução das Editions Sociales, Paris, 1980) e que abre o capítulo 2 da obra: "Todas as vezes que penso na necessidade que os homens tinham do comércio, e nas comodidades que dele resultaram para suas vidas, não posso deixar de admirar a sabedoria e a bondade divinas que infundiram à inteligência humana as sementes, entre outras, de tão fecunda invenção como foi a da moeda, mediante à qual a comunicação entre os povos se tem expandido em todo o globo terrestre em tal grau que se pode dizer ter-se tornado o mundo inteiro uma única cidade, onde há uma feira permanente de todas as mercadorias e onde cada homem pode, mediante o dinheiro, estando em sua casa (em 1683!), prover-se e desfrutar de tudo o que a terra, os animais e o trabalho humano têm produzido em outras partes. Invenção maravilhosa"! É claro que Marx esqueceu a bondade divina na sua citação...

Duas pequenas observações: primeiro, estou muito curioso em saber qual a origem da sugestão que o nome de autor é o pseudônimo de Ottavio Finetti, coisa sobre a qual eu nunca tinha lido, o que, obviamente, não garante que não seja verdade e não reduz em nada a utilidade da obra. A segunda é lamentar que o editor não tenha incluído no texto o cuidadoso estudo sobre Montanari de autoria do enciclopédico Oscar Nuccio, que integra a cópia fotostática do volume III da Collezione Custodi referida acima.

Aos leitores uma sugestão e um voto: não deixem de comprar e guardar as "Raízes do Pensamento Econômico" publicadas pela Segesta Editora e, depois, tenham um bom apetite!

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