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Revista do Instituto Humanitas Unisinos, São Leopoldo, 17 de março de 2008.

Incentivo ao conhecimento: o retorno das obras clássicas

Ao lado da esposa e outros sócios, o economista italiano Andrea Vicentini realiza o sonho de tornar acessível grandes clássicos da literatura traduzidos ao português

Graziela Wolfart: Entrevista a Andrea Vicentini

Andrea Vicentini (Divulgação)Faz sete anos que os admiradores da literatura econômica passaram a ter uma boa fonte de novidades. Uma pequena editora de Curitiba, a Segesta, trabalha no sentido de lançar no Brasil traduções de obras pouco conhecidas até mesmo no meio acadêmico. Não são best-sellers, mas atraem por trazerem discussões que, mesmo antigas, não perdem a atualidade. O que mais desperta interesse é a coleção Raízes do Pensamento Econômico, atualmente com oito títulos . A IHU On-Line entrevistou, por e-mail, o economista italiano Andrea Vicentini, um dos sócios da editora. Ele fala sobre o projeto, as dificuldades e as próximas metas de publicação. Vale lembrar que as obras não se encontram pelas livrarias do país, com exceção da Cultura, de São Paulo, e da Leonardo da Vinci, do Rio de Janeiro. Mas quem quiser pode fazer o download gratuito no site www.segestaeditora.com.br. Vicentini trabalha com a esposa, Marzia Terenzi Vicentini, e um casal de amigos - Pedro de Alcântara Figueira e Fani Goldfarb Figueira. Todos são aposentados e dedicam-se a escolher os temas e ajudar na tradução das obras. Andrea Vicentini é formado em Contabilidade e Ciências econômicas pela Universidade de Urbino. Entre 1969 e 1975, foi diretor da Companhia Brasileira de Colonização e Imigração Italiana.

IHU On-Line - O que motivou a aposta de vocês em clássicos e em obras pouco conhecidas? No que a trajetória de vida dos sócios da editora ajuda a entender esse interesse em publicar obras de pouco interesse comercial?

Andrea Vicentini - O projeto Raízes do Pensamento Econômico nasceu depois de vários anos de estudo na área de história, literatura, sociologia e economia. Os desastrados planos econômicos dos anos 1980, implantados no Brasil por grupos de economistas ligados às universidades de São Paulo e Rio de Janeiro, indicaram a necessidade de se conhecer com mais profundidade alguns textos sobre problemas monetários que pudessem ajudar a compreender melhor a política econômica. O objetivo era colocar obras importantes e desconhecidas à disposição dos estudiosos e dos leitores, em textos integrais e bem editados. O apoio financeiro do Instituto Italiano de Cultura, que financiou a tradução de três textos de autores italianos,(1) ajudou e foi fundamental para que pudéssemos iniciar nossas atividades. Somos quatro pessoas a trabalhar, escolher as obras e traduzir: Pedro de Alcântara Figueira, historiador, Fani Goldfarb Figueira, doutora em Sociologia, Marzia Terenzi Vicentini, doutora em Literatura Italiana, e eu, que fiz um curso em Ciências Econômicas na Universidade de Urbino, na Itália, e vivo, desde 1967, problemas ligados à agricultura brasileira: organizei uma cooperativa agropecuária e desenvolvi uma empresa agrícola.

IHU On-Line - Como está o processo da tradução e publicação de O capital? Qual é a atualidade de Marx?

Andrea Vicentini - Depois da queda da antiga União Soviética, o trabalho teórico de Marx ganhou autonomia e eliminou a confusão que considerava, erroneamente, os regimes socialistas existentes como resultado do seu pensamento. Aristóteles, que estava ligado a Alexandre, o Grande, ganhou força depois da morte deste. O mesmo está acontecendo com Marx. Ele é o Aristóteles dos nossos tempos. Não existe obra de economia tão clara, profunda, importante, atual como O capital, publicado em 1867. A tradução contratada pela Segesta ainda está em fase de estudo. Uma vez pronta, será colocada na internet para download gratuito. E isto será importante para conhecer e estudar o texto.

IHU On-Line - Quais são as características dos livros publicados pela Segesta? Qual é a particularidade da coleção Raízes do Pensamento Econômico?

Andrea Vicentini - Todos os textos da coleção eram inéditos no Brasil e estão todos ligados ao conhecimento dos problemas da moeda. Observamos que esta linha de estudo está sendo implementada na França, onde está sendo traduzido Antonio Serra,(2) na Alemanha, onde está sendo traduzida a obra de Galiani(3) Da moeda; e na Argentina, onde já foi traduzido o texto de Oresme(4). Quero sublinhar, assim, que a pesquisa da Segesta faz parte de um processo maior que está ativo no mundo todo.

IHU On-Line - Vocês afirmaram que o trabalho da editora não dá lucro. Qual é a principal motivação em publicar livros apenas pelo prazer da literatura?

Andrea Vicentini – Inicialmente, pensamos que os livros pudessem ser vendidos para os acervos das Bibliotecas Públicas e Universidades, mas isto não aconteceu. Quando o governo faz compras para estas entidades, a Segesta esbarra no lobby das grandes editoras que monopolizam o fornecimento. A Segesta, assim, procura ter, antes de se comprometer com a edição, o capital necessário para o custeio. Só vendemos nossos livros pela internet. Fazemos doações às bibliotecas públicas que pedirem (enviamos livros para 200 bibliotecas do Ceará). Colocamos os textos na internet para download gratuito. Somos pessoas aposentadas com mais de 65 anos de idade. De um lado, podemos ir ao cinema gratuitamente, como podemos viajar de ônibus sem pagar, de outro, acho que temos o dever de difundir o conhecimento.

IHU On-Line - Qual é a importância que vocês mais destacam no fato de tornar disponível uma obra antiga, mas que continua atual? Em que medida as idéias de grandes pensadores contribuem para a compreensão da sociedade e da cultura contemporâneas, principalmente falando de economia?

Andrea Vicentini - Vou responder com as palavras que o imperador da língua portuguesa, Antônio Vieira(5), diz num sermão: “se queres ver o futuro, lede as histórias e olhai para o passado, se quereis ver o passado lede as profecias e olhai para o futuro. Se no passado se vê o futuro e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado”. Acrescento que alguns textos do passado são mais importantes quando chegam a ser clássicos, isto é, quando você lê e relê o texto e em cada leitura encontra sempre idéias novas para compreender a atualidade. Vivemos martelados pela mídia, dentro de um confuso e intrincado labirinto de idéias que escondem o verdadeiro caminho do conhecimento dos fatos políticos. A saída pode ser encontrada em textos do passado que tratam questões importantes, como a chegada de ouro e prata do Novo Mundo ao velho continente, a primeira emissão de papel moeda com John Law,(6) os debates sobre comércio de cereais dos iluministas antes da Revolução Francesa.

A morte do dólar

Estamos assistindo, no plano da política, a uma grande tragédia americana: a morte do dólar. O que irá acontecer? É difícil encontrar nos jornais artigos de economistas que ajudem a compreender a situação. Alguns dizem que a culpa da crise financeira está ligada ao financiamento de imóveis nos Estados Unidos. O governo americano reconhece o problema, mas afirma que não existe desemprego e que o custo de vida não está subindo. Eu me pergunto: se o coitado trabalha, se o poder de compra do salário é constante, por que, então, ele não está pagando o financiamento do seu imóvel? O governo americano está mentindo e é evidente que falsifica os indicadores do custo de vida. Sabemos que este grupo que está no poder nos Estados Unidos está acostumado a falsificar: fraudou o resultado de uma eleição, fraudou a causa de uma guerra injusta e assassina. Por que não pode manipular os indicadores econômicos? Mas o dólar é a medida que avalia todas as commodities e a alta expressiva dos preços do petróleo, da soja, do trigo, do milho, por exemplo, já está nos mercados do mundo inteiro. Uma forte inflação na terra do dólar está em andamento e ninguém vai poder esconder este fato dramático. Acho que haverá uma grande transferência de riqueza de uma classe para outra, como aconteceu com a chegada do ouro e da prata do Novo Mundo na Europa de 1600. E, também, como desdobrou a situação na França na época da primeira emissão do papel moeda de John Law. Os economistas contemporâneos, que escrevem e comentam a situação, falam de recessão. Mas creio que estamos enfrentando um fato novo. Vou usar uma palavra nova: exúvia(7). Sim, uma incomensurável exúvia. O desconcerto da máquina do mundo será tão grande que vamos ter uma profunda mudança na sociedade sem poder prever o que vai nascer dos despojos do atual imperialismo. Sem dúvida, o estudo de acontecimentos e fatos do passado vai ajudar a entender o presente.

IHU On-Line - Como surgiu a idéia de tornar disponíveis as obras para download gratuito? Vocês são adeptos da teoria de que “o conhecimento é livre”?

Andrea Vicentini - Queremos que os textos sejam conhecidos. Temos leitores que fazem download em Portugal, em Angola, em Moçambique e em vários lugares do Brasil. O livro é outra coisa. A impressão é feita no melhor papel encontrado no mercado. A capa é forte e bonita. Imprimir o texto fica caro. O cartucho é mais caro do que o livro.

IHU On-Line - Como o senhor vê a divulgação que Delfim Netto faz da editora?

Andrea Vicentini - Quando cheguei ao Brasil, em 1967, estudei um texto de Antonio Delfim Netto(8) sobre a política do trigo, escrito pouco tempo antes de ele ser nomeado Ministro da Fazenda pelo governo militar. Naquele tempo, estava procurando elementos e idéias para organizar uma cooperativa agropecuária de plantadores de algodão e trigo e achei aquele estudo muito importante. Como ministro, Delfim realizou o que tinha escrito teoricamente e impulsionou a produção de trigo, contribuindo para modernizar a produção agrícola, que chegou a ser da mais alta tecnologia. Hoje, ele tem a maior biblioteca de textos econômicos existentes no Brasil e nos disse que vai doar todos os livros à USP, com a condição de que a universidade fique também com a casa onde se encontram, para evitar a perda do acervo. Ele conheceu os nossos livros e está dando um forte apoio. Reconheço que a propaganda do Delfim foi fundamental para a Segesta.

IHU On-Line - Quais são os próximos planos da editora?

Andrea Vicentini - Está em preparação a tradução da obra de Simonde de Sismondi, (9) Novos princípios de Economia Política, escrito em 1819-1826. Depois, espero começar as revisões de O capital. O programa é publicar somente o primeiro livro de Marx que foi editado por ele em 1867. Gostaria de dizer que o interesse sobre Marx é grande no Brasil. Foram editadas recentemente duas boas traduções da Ideologia Alemã. Temos conhecimento de que se prepara a edição em língua portuguesa, aqui no Brasil, dos Grundrisse.(10) Vou fi nalizar lembrando que me referi antes ao “desconcerto da máquina do mundo”. São palavras de Camões quando descreve uma trágica tempestade. Para entender problemas econômicos, gosto de recorrer a escritores da grande literatura. É na grande literatura que podemos encontrar notáveis pensamentos sobre temas de economia. Nestes dias, li a história de Cogia Hassan(11), nas Mil e uma noites, que afirma que o dinheiro existe para ser gasto. E acrescenta que o dinheiro deve, também, produzir riqueza para poder receber o necessário sem medo de esgotar a fonte. A tragédia americana esqueceu este “também”, e a riqueza está acabando. A poupança do mundo, que sustentava as imensas despesas do império quando adquiria os títulos da dívida pública americana, está sendo dirigida agora a outros destinos. Era o medo do socialismo que empurrava os países capitalistas a sustentar o poder americano. Hoje, não existe este medo, e quem tem dólares está gastando. E gastando, o dólar se desvaloriza. A exúvia começou. Acabaram As mil e uma noites. Vão começar as Mil e duas noites. O que será?

1 O entrevistado refere-se aos seguintes livros e autores: Da moeda de Ferdinando Galiani, Breve tratado, de Antonio Serra e Tratado Mercantil sobre a moeda, de Geminiano Montanari. (Nota da IHU On-Line)
2 Antonio Serra: autor do primeiro livro de economia política na Itália, em 1613. (Nota do entrevistado)
3 Ferdinando Galiani (1728-1787): economista italiano. (Nota da IHU On-Line)
4 Nicole d’Oresme (1323-1382): Economista, matemático, físico, astrônomo, filósofo, psicólogo, musicólogo e teólogo francês. Foi conselheiro do rei Carlos V da França. (Nota da IHU On-Line)
5 A revista IHU On-Line número 244, de 19- 11-2007 dedicou seu tema de capa a Antônio Vieira. O download pode ser feito em www. unisinos.br/ihuonline (Nota da IHU On-Line)
6 John Law (1671-1729): economista escocês. (Nota da IHU On-Line)
7 Exúvia é o tegumento deixado pelos artrópodes e pelos répteis por ocasião das mudas. A palavra vem do latim exuere que significa despojar. O entrevistado explica que usou essa expressão para indicar que estamos enfrentando uma situação completamente nova. A moeda dólar é a medida de todas as mercadorias. A palavra commodity vem do latim commoditate, que significa que tem valor, pode ser medida. O desaparecimento do dólar vai criar uma situação nova, ainda indefinida. Como vamos dar valor às mercadorias? Sobre os despojos do dólar, a humanidade terá que criar alguma coisa, comentou Vicentini. (Nota da IHU On-Line)
8 Antônio Delfim Netto (1928): economista e político brasileiro. Atuou como secretário da Fazenda em São Paulo entre 1966 e 1967. Durante o regime militar, entre 1967 e 1974, foi ministro da Fazenda. Em 1979, ocupou o cargo de ministro da agricultura e em 1985 foi ministro do Planejamento. É professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP). Antonio Delfim Netto elogiou a iniciativa da editora. Entre outras coisas, ele disse que “O projeto da Segesta merece todo o apoio dos que se interessam pela teoria econômica e pela economia política. Trata-se de uma contribuição fundamental para a melhoria do conhecimento da literatura econômica entre nós. Talvez seja indispensável mesmo para os que se julgam ‘cientistas’ e, portanto, desinteressados dos aspectos arqueológicos da profissão.”. O comentário na integra pode ser lido através do endereço www.segestaeditora.com.br/artigos/ d_netto.htm. (Nota da IHU On-Line)
9 Jean-Charles-Léonard Simonde de Sismondi (1773-1842): economista e historiador suíço. Nos seus últimos anos de atividade profissional escreveu a Histoire des français (1821-1844). (Nota da IHU On-Line)
10 Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Elementos fundamentais para a crítica da economia política): é um manuscrito de Karl Marx, completado em 1858. Sobre o tema, a IHU On-Line entrevistou Jorge Paiva. A entrevista “‘Grundrisse’ de Marx. Um outro paradigma teórico para os desafios contemporâneos” está disponível na nossa página eletrônica www.unisinos.br/ihu. (Nota da IHU On-Line)
11 Cogia Hassan é uma personagem de um conto do livro As Mil e Uma noites. (Nota da IHU On-Line)

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